Os movimentos repetitivos no trabalho



Em 1830:

... Primeira manifestação de uma epidemia atribuída aos movimentos repetitivos no trabalho. Conhecida por cãibra do escrivão, desenvolveu-se nos Correios Britânicos e, segundo os trabalhadores, era provocada pelos aparos metálicos que haviam sido recentemente introduzidos.

Em 1908:

... A  patologia "cãibras do telegrafista" foi adicionada à lista de doenças cobertas pelo "British Workman's Compensation Act" de 1906. Tal atitude ficou a dever-se à premissa, não demonstrada, de que a doença se relacionava com lesão muscular provocada por movimentos rápidos e repetitivos durante o desempenho da profissão de telegrafista. Nos 4 anos seguintes, 60% dos operários referiam sintomas e 30% tinham dificuldades de manipulação. Na mesma altura, nos USA, só 4 a 10% dos trabalhadores de telégrafo referiam os ditos sintomas. Depois de exaustiva análise concluiu-se que se estava perante um esgotamento nervoso que resultava da combinação de dois factores: susceptibilidade individual do operador e problemas de ergonomia. Entretanto, os sintomas principais não tinham relação com a "quantidade de trabalho desenvolvido".



A epidemia Australiana do síndroma do esforço repetitivo (RSI)


A epidemia Australiana do síndroma do esforço repetitivo (RSI), que provocava sintomas de dor braquial e incapacidade, ocorreu em meados da década de oitenta na Austrália. Provavelmente, contudo, a patologia é muito mais antiga (ver, na barra cronológica, a epidemia conhecida por "cãibra do escritor", de 1830 e a "cãibra do telegrafista" de 1906).

 O RSI era muito raro na Austrália nos inícios da década de oitenta mas, 5 anos depois, a prevalência era tal que 30% dos trabalhadores de determinados postos de trabalho padeciam de dor e incapacidade que impediam a continuação do exercício das suas funções.
A doença afectava os trabalhadores manuais e os não manuais, predominava nas mulheres e nos não australianos, e não estava uniformemente representada nos postos de trabalho (mesmo naqueles de condições ergonómicas e características sociais idênticas). Eram muito raros os casos em trabalhadores por conta própria. Nos começos da década de 1990 a doença havia regredido para as baixas taxas endémicos do início da década de 1980.

As condições difíceis no trabalho sempre foram outra fonte de doença. A tecnologia tem permitido eliminar ou pelo menos diminuir os riscos, recorrendo a máquinas mais ou menos automatizadas (ex. câmaras de pintura). Mas nos tempos modernos e nos países avançados, o trabalho continua a produzir doença e, por exemplo, está muitas vezes na base de patologia depressiva. Na verdade, o contacto com o doente mostra que, contra o que é natural no ser humano, o prazer no trabalho é cada vez mais uma raridade. Aos trabalhadores não são dadas condições para a indispensável identificação com os objectivos da entidade patronal. Além disso, como já se afirmou, as tarefas são excessivamente programadas pela  hierarquia, não restando lugar para a criatividade do executante.  O resultado é um trabalho desinteressante, monótono e penoso que raramente é comentado ou partilhado pela família.


 
 

(imagens adaptadas de Science and Public Health, AST 28110; The Queen University Press)