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Carta aberta ao meu psiquiatra
Há dias, estava na mercearia da
minha rua e ouvi uma senhora, de meia-idade a comentar com a empregada que a
atendia, sobre alguém que eu não conhecia: "Oh, coitada, está um farrapo
humano!" - dizia a senhora com um ar muito pesaroso e uma expressão de
tristeza que eu adivinhava falsa.
Aquela frase causou-me um arrepio, dei-me conta de que, ainda há bem pouco
tempo, eu teria sido o alvo perfeito dum comentário desse género. Fiquei
presa a esse comentário o resto do dia. Ele sintetizava na perfeição aquilo
que fui.
A certa altura, no meio do meu dia de trabalho e ainda com aquele episódio
na mente, apercebi-me da serenidade com que me recordava do tempo em que
"fui um farrapo". Era uma serenidade que me permitia absorver esse
comentário sem angústia, com paz. Sentia-me como alguém que sobrevive
a uma doença fatal e ouve a notícia de que outro alguém terá de passar pelo
mesmo. O medo da dor dá lugar ao respeito pela dor.
À noite, já depois de jantar e sem compromissos com o resto do mundo, a
minha mente recuou ao dia em que entrei no seu consultório e a todo o
percurso que me levou até lá. Fui procurá-lo para o tentar convencer de um
diagnóstico que já havia feito sobre mim, sobre a minha vida e sobre a
origem dos meus problemas. Julgava-me apenas cansada das injustiças da vida,
vítima de incapacidade dos outros em me reconhecer valor. Eu sabia tudo
sobre mim própria, não precisava de si para nada, o Doutor era apenas mais
um incompetente dum médico a quem eu ia dar uma oportunidade. Era
praticamente impossível que me ajudasse. Eu não vinha nos livros que o
Doutor andou a estudar. Tinha uma história pessoal só minha, uma maneira de
sentir só minha, uma maneira de pensar só minha. Não podia admitir que, em
quatro ou cinco consultas, quatro ou cinco horas, o Doutor descobrisse o que
sou e como sinto. Estaria disposta a boicotar todas as suas tentativas de
diagnóstico. Se me descobrisse em poucas consultas isso iria retirar
credibilidade à minha personalidade. Tanta intensidade no sentir para depois
ouvi-lo dizer que aquilo que eu sinto é afinal tão banal e tão comum. Acho
que a minha necessidade de me imaginar única era superior ao meu desejo de
me sentir melhor. No meu íntimo sentia-me a mais miserável das mulheres mas
era completamente incapaz de assumir esse sentimento perante mim própria e
perante os que me rodeavam. Julgava-me apenas cansada.
Recordo as nossas primeiras consultas como batalhas. O Doutor a fazer-me
perguntas, aparentemente vagas e banais, com o intuito de me despertar um
discurso livre. Eu deixava-me falar, convicta de que dominava a linha do meu
discurso e pensava: "para isto até eu sei ser psiquiatra. Grande coisa!
Estou aqui a perder tempo e a gastar dinheiro não sei para quê!". De cada
vez que me pedia para esclarecer melhor um ou outro aspecto do meu discurso,
eu tentava desvalorizar a questão, dizendo o menos possível. E quando me
perguntou porque razão eu justificava tanto todas as atitudes e sentimentos
que tive em relação ao meu pai, eu senti como se me estivesse a dar uma
facada. Reagi com agressividade e estranhei a calma e firmeza com que me
disse: "Gostaria que pensasse melhor nisso, quero ouvi-la falar sobre a
relação com o seu pai na próxima consulta". Abandonei o consultório com ódio
de si. Quando marquei uma nova consulta, tive necessidade de dizer a mim
própria: "Deixa lá, marca e depois desmarcas pelo telefone! Tens mais o que
fazer do que andar a aturá-lo."
Não sei exactamente porquê, mas não desmarquei. Acho que foi pela surpresa e
pelo desafio: "Está completamente enganado, está no caminho errado, mas
deixa ver o que é que ele pensa que descobriu!"
Estranhei o prazer que senti quando me voltei a sentar à sua frente e o ouvi
perguntar:
- Então, como se sentiu depois da última consulta?
- Nada de especial. Ando igual. Às vezes até parece que ando pior - respondi
eu. Foi a melhor forma de lhe retribuir a facada.
Estranhamente, essa "facada" que julguei ter-lhe dado aliviou o meu desejo
de o agredir e o resto da consulta passou sem eu me dar conta. No final, eu
já não via o inimigo julgador que a minha mente imaginava e, de cada vez que
tinha de falar de mim, sentia que me despedia duma pessoa que estava
interessada em conhecer a minha mente para me ajudar a viver melhor com ela.
E senti um desejo profundo de me aliar a si. Passei a apontar tudo o que
queria dizer-lhe na próxima consulta, passei a questionar-me se este ou
aquele episódio seriam relevantes para o ajudar a descobrir-me. Acho que
esse foi o início do fim da minha angústia interior.
Demorou algum tempo até o Doutor me dizer: "Penso que já está bem, não
precisa de voltar à consulta." Naquela hora, fui assaltada por dois
sentimentos contraditório. Por um lado o alívio, pois havia uma pessoa a
quem eu reconhecia competência que me dizia que eu estava equilibrada. Por
outro havia alguma desilusão consigo, por me estar a "dispensar". Era
verdade que me sentia melhor, que já estava emocionalmente controlada, mas
havia tanta coisa por descobrir sobre mim. No essencial, ambos já sabíamos
que eu era uma melancólica, com alterações de humor frequentes e que
encontrava prazer na dor de um desespero imaginado. Mas eu queria aprofundar
melhor o conhecimento de mim própria e só o Doutor me podia ajudar. Só a si
eu poderia confessar, sem culpa, os "maus sentimentos" que tive em relação
aos meus pais e irmãos, os segredos que guardava da minha vida íntima e a
falsidade duma boa parte das minhas relações pessoais. E agora o Doutor
estava a dispensar-me da consulta. Senti-me traída. O Doutor já estava
integrado no meu novo dia-a-dia. Eu sabia que todos os meses ia falar
consigo sobre mim. Era apenas durante 50 minutos, mas era só sobre mim. O
que interessava era Eu, aquilo que Eu sentia, como via as coisas, como
julgava que os outros me viam e me sentiam. Durante o mês, perante qualquer
coisa que me acontecesse, eu sabia que teria esse espaço de reflexão, que as
minhas emoções não sairiam do meu controlo porque iríamos descobria o que
sentia, como sentia. E era isso que me iria ajudar a compreender e respeitar
as minhas reacções e atitudes.
Foram precisos dois dias até eu me dar conta dos seus motivos. Na verdade
não estava a dispensar-me mas apenas a dar-me "alta clínica". O seu único
erro foi não ter percebido que eu já não o procurava para curar a doença mas
para evitar que voltasse a adoecer. E assim que essa ideia me ocorreu na
mente, telefonei de imediato a marcar nova consulta. Expliquei-lhe que
queria manter as consultas mensais porque me faziam muito melhor que uma ida
ao cabeleireiro e que custavam apenas um pouco mais. Sorriu e disse-me muito
calmamente: "Percebo o que diz. Claro que podemos fazer um bom trabalho. A
psiquiatria é muito mais eficaz a prevenir que a curar; infelizmente muito
poucos são capazes de reconhecer o que a senhora acabou de me dizer."
E temos feito, de facto, um excelente trabalho. Não consigo imaginar nada
melhor na minha vida, nada que me deixe tão segura como a ideia de que todos
os meses vou parar para conversar sobre mim com um especialista da mente. É
assim que eu o vejo, alguém que consegue desmontar a minha forma de pensar e
sentir e me mostra a cada momento que rejeitar essa forma de pensar e sentir
é rejeitar-me a mim própria, que o meu controlo tem de ser direccionado para
os meus comportamentos e não para a minha mente.
- Você não pode controlar o que sente, quando muito pode controlar o que faz
com o que sente - disse-me o Doutor um dia na consulta.
Hoje sou uma defensora convicta de que a psiquiatria deveria estar ao
alcance de todos. É uma pena que o Estado só pague uma consulta de
psiquiatria a quem já explodiu. É o mesmo que só pagar uma operação a um
doente grave depois que a doença se espalhou pelo corpo todo. E eu pergunto,
o que pode o operador fazer nesta fase? Porque fazem o rastreio gratuito de
tantas doenças e nunca nos ofereceram uma consulta de psiquiatria para
avaliar os "riscos" da nossa mente?
Pense comigo. Onde está a origem dos distúrbios alimentares? Onde está a
origem das úlceras nervosas e das colites? Onde está a origem da asma? Onde
está a origem das toxicodependências e do alcoolismo?
E a violência doméstica? A pedofilia? A prostituição? A criminalidade?
Quantas decisões erradas e precipitadas as pessoas tomam porque não se
conhecem a elas próprias e não percebem nem respeitam o que sentem?
Há dias li que o próprio cancro e muitas outras doenças (cardíacas, por
exemplo) são muito mais frequentes em pessoas com determinados modos de
sentir e de agir. Então não será legitimo perguntar porque é que temos
direito a um médico de família, mesmo antes de estarmos doentes, e não temos
direito a uma consulta de psiquiatria enquanto não perdermos o controlo de
nós próprios?
Quanto sofrimento se poderia evitar se cada um de nós tivesse um espaço como
aquele que eu tenho na sua consulta. Obrigada por ter escolhido ser
psiquiatra.
Porto, 29 de Junho de 2006
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