Sobre as famílias doentes


A propósito de um caso de toxicodependência por nós conhecido, surgiu a ideia de conhecer melhor a família do indivíduo em causa (apresentava todas as características daquilo a que, em linguagem técnica, se chama "um bode expiatório"). Numa espécie de introdução descomprometida, própria de um blog, à abordagem de uma qualquer família, saliento aqui o seguinte:

As famílias podem ser sede de um somatório de situações patogénicas inibidoras de um natural desenvolvimento individual. É um facto conhecido que as famílias tentam tudo para conseguirem manter a sua organização e modos de funcionamento  habituais ("tendência homeostática"). Mas esse esforço pode colidir com as necessidades pessoais dos seus membros que pretendem uma maior diferenciação individual.  Ora, nessa dinâmica do "mudar" (desenvolver o seu "EU") e do "manter tudo na mesma" (permanecer dependente dos afectos familiares), criam-se relações especiais entre alguns (sobretudo "alianças" e "triangulações") e os problemas surgem. Esta é uma interpretação clássica nas terapias familiares.

Mas nem tudo são alianças (contra alguém) ou triangulações. Os pais estão sempre prontos para nos transmitirem a ideia de que "amam todos os filhos por igual" e os filhos também "gostam de ambos os pais por igual". Nada disso é verdade, nunca assim foi e nunca poderá ser porque nós não mandamos no que sentimos e a natureza não tem as nossas preocupações de justiça nem o nosso medo da culpabilidade. Nas famílias há amores especiais, relativamente circunscritos, tipos genéricos de relacionamentos a que convém prestar uma atenção especial.

O amor do casal é o germe do muito de bom e de mau que vai surgir na família. Passa por uma fase de paixão, de  cerca de ano e meio de duração, determinada biologicamente em muitos dos seus aspectos e que depois pode evoluir de vários modos. Muitas mulheres saturam-se rapidamente da vida conjugal e este facto pode vir a determinar distintos cenários para a recém criada família:
  • Algumas mulheres passam a ocupar-se quase exclusivamente com as rotinas da maternidade e, após o parto, desviam quase toda a sua mente para a relação com a criança. A cama do casal é, em alguns casos, abandonada mais ou menos definitivamente nesta fase. O discurso adoptado por estas mães anda quase sempre à volta  de pequenos problemas  da criança (problemas frequentemente naturais, habitualmente hipertrofiados  para cumprirem a sua função compensatória). É um discurso que passam a toda a gente, no emprego, nos encontros com as amigas, nas visitas ao médico, em todo o lado.
  • Muitas mulheres têm uma relação ambivalente com os anticonceptivos (multiplicam-se as consultas de ginecologia) e isso significa por vezes um desejo não assumido por engravidar ou a repulsa pelas coisas do sexo.
  • Quando a maternidade não é possível (de verdade ou apenas em fantasia) o casal inicia "um calvário" (sic) que o vai ocupar nos próximos anos, a rotina das consultas especializadas em clínicas mais ou menos públicas e uma sexualidade que perde rapidamente a espontaneidade (sexualidade ritualizada).
  • Nestes ou em outros cenários de relação do casal, uma relação extra-conjugal acontece frequentemente.
A relação mãe-filho é talvez a mais complexa e sujeita a enviesamentos diversos. Muitas vezes não é o que deveria ser, originando psicopatologia conhecida. No que interessa ao tema que nos ocupa, muitos problemas surgem com o prolongamento da intimidade mãe-filho para além do razoável. As jovens esposas queixam-se muito das intromissões abusivas da sogra na vida do casal, sentindo que o marido continua a pertencer afectivamente à mãe, seja porque os dois mantêm uma conta bancária secreta, seja pelas constantes visitas privadas à casa materna com que o marido se vai entretendo, ou seja por qualquer outro motivo que as confronta com uma espécie de casamento parcial onde sentem que quase não têm lugar.

A relação do pai com uma filha merece um destaque especial, parecendo funcionar como um invólucro que vai condicionar uma boa parte da personalidade das meninas, sobretudo no que diz respeito às suas futuras relações hetero-sexuais. Recentemente confirmou-se isto mesmo ao estudar os casos de comportamento sexual promíscuo, de algumas meninas, durante a adolescência.  O pai deve fazer tudo ao seu alcance para que a filha se sinta orgulhosa do facto de ser menina. Isso consegue-se se ela percepcionar uma relação satisfatória (terna, sedutora) do pai com a mãe mas o resultado também poderá depender de outros aspectos da relação pai-filha.

A relação de um pai com o filho talvez seja  a menos conturbada (note-se que o pai e o filho habitualmente falam pouco entre si, conversar muito nem sempre é sinónimo de relações fluídas). Shakespeare (no Hamlet) definiu-a assim, há quase 500 anos, sob a forma de conselhos dados por um pai a um filho que vai partir para o estrangeiro:
  • Não publiques com facilidade o que pensas, nem executes coisa que não esteja bem premeditada primeiro.
  • Deves ser afável no trato, mas não vulgar.
  • Une à tua alma, com vínculos de aço, os amigos que adoptares depois de examinada a sua conduta mas não acaricies com mão pródiga os que mal saíram da casca e ainda estão implumes.
  • Evita sempre envolver-te em disputas, mas, se te vires envolvido nelas, age de maneira que o teu adversário fuja de ti.
  • Dá ouvidos a todos, a voz a poucos.
  • Escuta as censuras dos outros, mas reserva a tua própria opinião.
  • Que as tuas roupas sejam tão caras quanto o permitirem as tuas possibilidades, mas não afectadas no feitio; rico não extravagante, porque o trajo diz vulgarmente quem o usa.
  • Procura não dar nem pedir emprestado a quem quer que seja; aquele que empresta perde muitas vezes o dinheiro e o amigo, e, ao que se habitua a pedir emprestado, falta-lhe o espírito de economia, e a boa ordem que nos é tão útil.
  • Mas, sobretudo, usa de franqueza contigo mesmo, e não poderás ser falso com os demais, uma consequência tão segura como à noite suceder-se o dia.
Portanto, nas famílias existe sempre uma grande densidade de sentimentos e é necessário saber lidar com ela. Agora afirma-se muito "o direito de expressar os próprios sentimentos" mas a experiência ensina que se os pais não controlam as emoções, acabam por se entender deficientemente e criam um inadaptado (como se refere na história de Hans, o porco espinho).

Bem, para alguns, a família deve ser estudada como uma entidade portadora de uma “psique colectiva” cuja compreensão não pode, muitas vezes, ser obtida por abordagens individuais. Os adeptos da "corrente sistémica" das terapias familiares têm um dogma: que a família é um todo e maior que a soma das suas partes. Nas famílias também costuma haver um esforço inconsciente para relacionar o passado com o presente e isso gera angústia e incerteza. De qualquer modo, a observação da chamada “família extensa” (incluir os avós no estudo da família) deve ser sempre equacionada porque, por exemplo, o denominado “banco emocional da família” pode situar-se fora da “família nuclear” (pais e filhos). Por isso,
as situações de crise individual (neste caso o consumo de droga) podem coexistir com vários outros sintomas em outros elementos do mesmo grupo e é frequente que o problema inicialmente apresentado por um elemento do agregado pode nem sequer reflectir adequadamente a gravidade da situação familiar.

Defende-se, em geral, que alguns dos maiores problemas comunitários (perturbação do comportamento infantil, baixo rendimento / abandono escolar, anorexia nervosa, alcoolismo, toxicomania, absentismo ao trabalho, etc.) podem ter uma expressão familiar dramática e serem mais satisfatoriamente abordados numa perspectiva familiar. Em certos casos, não interessa tanto identificar "causas de mal-estar" ou de "comportamentos anómalos" porque as famílias podem sentir-se culpadas com tais "explicações" e reagir, de um modo previsível, através de uma desqualificação: "o Dr. não conhece todos os factos". Por isso, algumas correntes defendem que é mais útil concentrar os esforços na identificação dos esquemas habituais de interacção (os chamados "comportamentos circulares" em que cada um reage de modo automático aos afectos que um automatismo de outro desperta).

De qualquer modo, as famílias enfrentam tarefas incrivelmente difíceis. A sociedade espera que os pais eduquem os filhos correctamente mas é claro que eles próprios não sabem como fazê-lo porque ninguém lhes ensinou e não há quem o saiba ensinar. A dúvida de se fomos ou estamos a ser bons pais e bons filhos é uma dúvida para a vida e para todas as pessoas. Todos conhecemos casos em que os pais só pensam em conservar, para sempre, o seu menino (porque a deprivação emocional que sentiram no passado as leva a soluções desesperadas de busca de compensações) e adoptam posturas que parecem demissionárias, excessivamente permissivas. Outros sentem-se melhor numa educação rígida, expondo continuamente a criança a explicações realistas para a necessidade de existência de limites ao desejo (não  as convencem, as crianças só colaboram voluntariamente quando as coisas lhes são inteligíveis em termos das suas preocupações emocionais, mas os pais não sabem disso).

Esta questão da necessidade de delimitação dos direitos e deveres individuais, seja em família, seja no emprego, seja na vida social em geral, é de suma importância e está na base de uma boa parte das consultas psiquiátricas. Há deveres e direitos pré-estabelecidos que são muitas vezes ignorados por boa ou por má fé. Se o leitor quiser pensar um pouco sobre isto, deixo-lhe aqui uma das melhores referências sobre o assunto: Leia o livrinho Alceste de Eurípides (485-406 A.C.)  mas não se fique pela questão do "admirável amor conjugal" nem pelo propalado "conflito de gerações".

A abordagem de uma família tem de ser feita com completa ausência de premissas e exige uma postura de permanente abertura e neutralidade face a crenças que podem ser muito distintas das que o observador internalizou ao longo do seu próprio passado. Este é um aspecto especialmente difícil de conseguir e habitualmente exige uma longa formação específica; mas é mesmo indispensável para ganhar a confiança da família e a adesão do doente que foi encaminhado para a consulta. Finalmente, gostaríamos de testemunhar que na comunicação com a família doente (ou "disfuncional", como se costuma dizer), tudo fica mais facilitado quando nos lembramos de que o que está em causa é, em geral, um verdadeiro excesso de amor entre pessoas que partilham vidas cheias de problemas (e, lembre-se, o ser humano ama mais aqueles a quem dá do que aqueles de quem recebe).

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