![]() O que somos e o que mostramos ser
Cada um de nós tem um conjunto de características especiais (físicas e psicológicas) que nos transformam num ser único. Para dar uma prova rápida e inequívoca disso mesmo, costumo dar o exemplo das impressões digitais: Pois se não existem duas pessoas que sejam idênticas nesse pormenor (tão secundário no ser humano, diga-se...), o que não se passará ao nível do cérebro, que é, de longe, o órgão mais complexo que possuímos, na sua estrutura e no seu funcionamento? Temos, portanto, uma individualidade psicológica, um "EU" que é nosso e que é único. Mas, ao olhar para esse "EU", facilmente encontramos muita coisa de que não gostamos. Alguns, como diz o Kierkegaard, fogem assustados a esse "EU" e nunca mais voltam a ter vontade de, sequer, espreitá-lo. Assim se inicia uma vida centrada no exterior, com todas as consequências (empobrecedoras da pessoa) que esse autor muito bem descreve. Uma mulher de 27 anos disse-me há uns tempos que lhe seria completamente impossível representar aquela cena do individuo gordo, bem disposto, plantado à entrada de um café, a falar com toda a gente, dizendo o que deve e o que não deve, guardando para si mesmo muito pouco do muito que diz e faz. É uma situação de euforia imotivada, tristeza encoberta, superficialidade infeliz. Afirmou mais: - "Eu não seria capaz disso porque cada
olhar que deito ao mundo é necessariamente demorado e produz
ressonâncias interiores que me ocupam largo tempo". E acrescentou: -
"Mas tenho um problema: fico sempre em segundo plano, acabo por não
dizer nada, dou uma imagem de ignorante. Para cúmulo, sempre que tenho
uma actuação infeliz ou falho em qualquer coisa, nunca consigo
escondê-la. As pessoas só vêem de mim o pior que tenho. Exponho-me na
tentativa de me esconder".
Este discurso fez-me pensar que muitas pessoas não conseguem aperceber-se de que existe uma "interface" na nossa relação com o outro, espécie de superfície que delimita os dois seres e onde podemos pôr e tirar, a nosso bel-prazer, muito do que pretendemos mostrar ou esconder dos outros. A imagem que fornecemos depende, até certo ponto, de nós mesmos porque está ao alcance da nossa consciência, da nossa inteligência e da nossa sensibilidade. Não podemos controlar completamente o que pensam de nós, mas podemos certamente condicionar muitos desses pensamentos. Encaminhá-los num determinado sentido. Uma outra mulher, com um pouco mais de idade, confidenciara-me alguns dias depois, algo que aparentemente era bastante semelhante. Dizia: - "O meu problema é estar
sempre com medo de falhar. Recordo-me de um dia uma prima minha se ter
divertido a arranjar-me o cabelo, a pintar-me os olhos e obrigou-me a
vestir uma roupa dela que realmente me tornava consideravelmente mais
bonita. Eu até me sentia bonita e sentia-me bem na roupa. Era o meu
género mas não fui capaz de sair à rua assim. Há qualquer coisa em mim
que não me deixa entregar-me a esses caprichos de ser arranjada e andar
na moda. Dá muito trabalho e sinto-me perdida. Acho que não saberia
escolher as coisas, desde a roupa até ao corte de cabelo e depois fico
com medo que essa falta de jeito me torne ridícula.”
Enquanto ela assim falava, pensei para mim por que motivo desvalorizava assim os seus cuidados com a imagem, ela que era uma pessoa pormenorizadamente arranjada, impecavelmente vestida. Parece uma questão simples, essa de ajudar alguém a melhorar a sua imagem ou, como se diz nas correntes comportamentalista inglesas, ajudar alguém a melhorar as suas "aptidões sociais". Mas, do ponto de vista do funcionamento em sociedade, nós sentimos necessidade de nos "mostrar" por motivos muito diferentes. Volta a questão da individualidade psicológica. Pensamos em melhorar a imagem porque temos necessidade de objectos de investimento emocional, de alguém para amar. E aqui surgem as diferenças, também no que procuramos no exterior de nós mesmos. Mas tudo o que foi dito, não significa que não haja determinados padrões e maneiras típicas de sentir e de viver. Por exemplo, alguns lembram-se, a cada momento, da falta que lhes faz o outro. Têm necessidade constante de que ele esteja ao seu lado. Receiam os perigos de uma proximidade demasiado "próxima" mas não podem resolver-se a permanecer sós. Por isso, sentem-se muito bem em grupos de amigos e vivem essencialmente apoiados neles. É uma situação que os tranquiliza, apesar de não passar muito disso, dessa relação com limites em termos de desenvolvimento afectivo mas que fornece aquele sentimento de segurança mínima que mantém à distância as ideias depressivas que constantemente ameaçam as suas vidas. Outros (e sem que assim se pretenda esgotar os padrões descritos), diz a psicologia clássica, buscam essencialmente um objecto sexual. Mas o que é isso, o que é que esses procuram realmente nas suas vidas? Essa mesma psicologia descreve-os assim: Por motivos que se
escondem por trás das próprias memórias do seu passado, certos
indivíduos sentem-se muito solicitados no plano erótico (vivem voltados
para a vida amorosa: amar e ser amados) e sofrem o desejo de
proximidade com qualquer objecto amoroso. E é em relação a tudo o que
os rodeia, às relações mais banais (sobretudo aquelas que foram
avaliadas como alvos potenciais), que estes indivíduos vão utilizar uma
série de artifícios de sedução que são simultaneamente muito
expressivos, vistosos e exagerados. São pessoas em geral dotadas de uma
fantasmatização rica e que dominam com facilidade a linguagem
emocional. A partir daí, qualquer posição afectiva, mesmo a mais
insignificante, tem tendência a tomar uma forma intensa e dramatizada.
Alguns reconhecem-se facilmente pela sua história pessoal de busca
precipitada desse contacto amoroso tentador, personalizado, intimista,
dominado, através de um discurso poético onde abundam os qualificativos
e as primeiras pessoas. O escolhido pode ficar surpreendido e
perguntar-se, atónito: "porque tanta atenção sobre o que sou e sobre o
que faço?"
Mas a verdade é que há um reverso disto tudo, há uma outra faceta neste tipo de personalidades. São pessoas afectivamente imaturas, inconsistentes, muitas vezes dependentes, têm uma terrível angústia de desagradar e atormentam-se com o medo constante de ver o pensamento (erótico) realizar-se de verdade. Vivem entre a excitação e o receio / interdição da sexualidade. Daí, as inquietações emotivas, as tendências depressivas e o aspecto entrecortado das suas existências, vividas entre duas alternativas, a da sedução e a da agressividade que mascara o desejo. A própria linguagem passa, com facilidade, da grande riqueza de expressão, ao mutismo amuado. As paixões sofrem os mesmos paroxismos que dão uma feição de incoerência face à "agressividade em relação ao objecto de amor e à afeição pelos objectos agredidos". Portanto, os seus amores terão de ser móveis, variáveis e múltiplos, chegam a fornecer uma ideia de promiscuidade, mas ficam-se, forçosamente, num plano superficial. Não existe uma verdadeira satisfação sexual, a não ser em certos momentos de inebriamento (no sentido de desvanecimento, de quase alteração da consciência, por vezes procurada no recurso ao álcool ou a drogas leves). E a imagem de aparente candura sentimental, a constante afirmação de objectivos ideais e as necessidades interiores de pureza e virtude, mascaram mal o lado vivamente erotizado com que investem os relacionamentos. São formações reactivas aos desejos sexuais e agressivos que aparecem sistematicamente aliados a uma representação de perigo. Por vezes, um encontro casual, em geral com um indivíduo do sexo oposto, pode produzir um afluxo violento de sensações eróticas que não são percebidas como tal (porque tudo se passa a um nível não consciente) e desencadear uma verdadeira crise ansiosa. A protagonista (note-se que quase sempre se trata de uma mulher), receia, inconscientemente, que o outro se dê conta dessa onda de erotismo e sente "o chão a fugir-lhe debaixo dos pés". No imediato, desenvolve um episódio de suores, tremores, palidez, sensação de desmaio eminente. A causa disso seria, tanto quanto consegue descortinar ao olhar, aflita, para si mesma (nível consciente), a possibilidade de dar uma imagem de desleixo, de ausência de encanto, no fundo de "não agradar", a este inesperado e potencial (porque inconscientemente investido) objecto de amor. Ou seja, voltando um pouco à raiz das coisas, a característica do seu desejo é também a insatisfação (uma espécie de identificação com a dor, tão monotonamente presente no seu discurso...) que produz um sujeito dividido, um escravo, sempre à procura de um senhor. Precisa de um mestre. Excita o desejo do outro, mas, pasme-se, não se aceita como objecto desse desejo. Mas, mesmo assim, não se aceitando como objecto desse desejo, não se pense que atinge uma posição, garantida, de completo domínio sobre o outro. Bem fundo na sua personalidade, não é difícil detectar, muitas vezes inesperadamente e só quando há olhos para ver e coração para sentir, um núcleo melancólico que dificulta a relação com o real e impossibilita o acesso ao prazer imaginado. Diz-se que procuram duplicações de objectos infantis nos objectos actuais e que a sua vida relacional, cheia de crises que fazem alternar momentos de calor afectivo e de retracção mais ou menos provocadora, seria um reflexo disso mesmo. Na base desta particular maneira de ser, estariam as identificações, difíceis e ambíguas com os dois progenitores, porque eles operariam, em simultâneo, sobre a criança, uma excitação e uma proibição sexuais. Permanecendo muito solicitada no plano erótico, a criança a partir de certa altura já não saberia muito bem como conciliar provocações e proibições, nem quem espera e quem defende a aproximação erotizada. A mãe, provavelmente adorável em tudo o mais, costuma ser considerada um elemento chave no processo, pela sua constância em atitudes tendentes a "des-erotizar" a personalidade da criança, Procura mantê-la afastada de tudo o que pode evocar necessidades sexuais, ignora ou minimiza a natural curiosidade sobre o corpo, preferindo encorajá-la a manifestar imaginação, encanto e charme. Quer dizer, estimula todos os aspectos do desenvolvimento da criança e da vida relacional, ajuda-a a compreender que o amor do outro é um bem inestimável, mas ensina-lhe a excluir a sexualidade e a verdadeira intimidade física que tanto desaprova. E a criança guardaria tudo isso para a vida. Esta última senhora continuava, como se abordasse directamente os meus pensamentos e pretendesse certificar-me de que não padecia de um problema de imagem (era óbvio, pelo que acabara de dizer, que se considerava segura da sua beleza e e da sua capacidade de manipular a sua própria imagem): - “Eu sei que é mais
cómodo não ligar à aparência física. Assim, sou apenas uma “pessoa que
não liga” e não “uma pessoa ridícula”. Mas uma tal decisão não é inócua
e às vezes dou comigo a reflectir nos efeitos que a imagem pode ter ao
nível da minha vida social. Quando me lembro que as pessoas possam ver
o pior que tenho, penso em mostrar, deliberadamente, o melhor que
tenho, quer dizer, sinto-me tentada a exibir o que considero serem as
minhas virtudes e o melhor que há em mim".
E, com um sorriso, reforçou a sua ideia, num tom levemente indiferente: - “Às vezes penso que
poderia ser mais arranjada e que ganharia mais com isso. Principalmente
no emprego. Mas depois vem o medo do ridículo, o medo de que passem a
olhar para mim e percebam que eu sou vaidosa. Acho que uma vaidosa a
fazer má figura é muito pior que uma desleixada ou discreta como eu
prefiro. Reparo como os adolescentes aderem facilmente a novos visuais,
novas modas e deduzo que estão a experimentar-se a si próprios, a
buscar aquela imagem que melhor traduz o que são, aquela que pode ser
mais harmoniosa com o que interiormente sentem. Claro que muito destes
processos são interrompidos por circunstâncias da vida e também são
ininterruptos no sentido de que nunca estão acabados. Mas quem não os
faz numa fase da vida, ou experimenta mais tarde ou deixará escondida,
inexplorada uma importante parte de si próprio. É óbvio que a
construção e desenvolvimento duma personalidade é um processo que
envolve risco. Só se é, sendo. Mas, em matéria de imagem, às vezes, eu
acho que simplesmente prefiro não ser. Queria que ninguém se lembrasse
de mim, do que eu visto, se estou mais magra ou mais gorda, se tenho
olhos castanhos ou verdes, se cortei ou não o cabelo. Sei lá, eu
detesto falar sobre imagem. Quero que gostem de mim mas não quero que
me falem nessas coisas. Também não sei muito bem porquê, nunca ninguém
me disse que eu sou feia. Pelo contrário, dizem que é uma pena, que sou
bonita e podia mostrar mais isso. Mas eu não gosto de chamar a atenção
para mim. Sinto-me incomodada.”
Um caso interessante, a seguir, até porque foram outras confidências posteriores que me levaram a descrever o seu caso nos moldes em que acima o fiz, como se ela fosse uma pessoa entre muitas. Não foi uma precipitação, foi uma tentativa de encontrar pontos de referência em mais um modo particular de sentir e de se relacionar com o outro. Quer ler mais sobre este tema? Leia os pensamentos da Mafinha (33 anos, solteira). Ler mais: Kierkegaard; "O desespero humano"; Livraria Tavares Martins, 1979, Porto. Jean Bergeret; "A personalidade normal e patológica"; Climepsi edotires, 2000, Lisboa.
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