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A minha passagem de ano de
2006/2007
Ano novo vida nova. Tantas vezes ouvi esta frase,
nos últimos dias do ano, que, muito antes da meia noite do dia 31 de
Dezembro, me pus a pensar. E dei-me conta de que mudar de vida pode ser
muito difícil e de que me assusta esse simples pensamento. Tal como as
outras pessoas, também eu tenho desejos intensos e uma ideia mais ou
menos precisa do que seria, para mim, o "céu na terra". Mas parece que
só eu sinto que não disponho daquele poder de, por meio de um simples
desejo formulado aquando da última badalada, mudar seja o que for a meu
respeito ou saber o que se vai passar comigo daqui para a frente.
Para mim, a pressão para mudar de vida existe porque, infelizmente,
sempre houve pessoas que me criticaram e manias minhas de que não
gosto. Alguma coisa deve estar errada em mim, para além do que vejo.
Será o estilo? a imagem? os comportamentos? a personalidade? os
sentimentos? os desejos? Não sei, juro que não sei. Daí estes
pensamentos tão dolorosos e recorrentes que se acentuaram perante a
eminência da mudança de ano.
Pensei em mudar o corte e a cor do cabelo porque, adivinho, qualquer
consultor de imagem iria começar por aí. Mas eu gosto do meu cabelo e,
pelo contrário, nunca gostei dos consultores de imagem. Podia alterar a
face, os seios, a barriga, sei lá... Dizem-me que a Segurança Social paga isso
tudo, até paga a mudança de sexo. Bem, de sexo não quero mudar mas
tenho de aproveitar e pensar em qualquer coisa. Talvez só para o ano
porque mudar por mudar, assim sem mais nem menos, levanta-me muitas
questões.
O meu nascimento tem uma história que todos conhecem, lá em casa -
Queriam muito que eu fosse um rapaz. Mas, quando nasci, mesmo tendo
nascido rapariga, já me tinham atribuído um nome e pouco depois
deram-me um diminutivo bem carinhoso. Eu, para eles (e para mim mesma,
acho..), sempre fui a "Mafinha".
São marcas que ficaram na minha identidade. Para além de que, desde
muito cedo, comecei a armazenar lembranças (algumas pessoas dizem-me
que as suas recordações são mais remotas mas as minhas só chegam aos
dois anos de idade). Ao revivê-las, vem quase sempre à ideia a imagem
dos meus pais. E então, logo que vem essa ideia dos pais, perco-me a
pensar o quanto gostaria que eles tivessem feito algumas coisas de uma
outra maneira. Ou a recordar, com emoção, os conselhos que eles, de um
modo mais ou menos preciso, me transmitiram. Reparo agora, ao
lembrar-me do que me dizem as minhas amigas, no facto de que raramente
os conselhos dos pais são considerados
sem valor quando os evocamos, mesmo naqueles momentos em que lhes
sentimos ódio, por isto ou por aquilo. Mas eu agora não os odeio, quero
continuar a vê-los como até aqui e quero que eles vejam em mim, a mesma
pessoa (a Mafinha) a que se habituaram.
Estou a dar-me conta de que o desejo de uma vida nova chama, sem a
gente querer, um outro pensamento muito concreto: quantos anos
mais durará a minha vida? E logo surgem, naturalmente, outras
perguntas para as quais não tenho resposta: Que vou fazer, no tempo que
me resta, da minha história, do meu diminutivo de "Mafinha", das minhas
experiências, dos ensinamentos paternos? Os meus familiares mais
próximos vão gostar da minha nova vida e da minha nova maneira de ser?
Às tantas desiludo-os e vão pensar que não tenho feito o melhor que
pude, até agora. E se mudar, será que tudo vai continuar a fazer
sentido?
Sinto-me um pouco perdida por ver que só eu tenho tantas dúvidas. Vou
agarrar-me mais às certezas. Há coisas que não vou mudar, pelo menos
para já.
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