| Ricardo Jorge viveu entre
1858 e 1939.
"A Peste
Bubónica do Porto levou ainda ao banimento da cidade da figura notável que foi Ricardo Jorge, lente da nossa Escola, consequência da
guerra que lhe foi movida pelos comerciantes do Porto, prejudicados pelo cordão sanitário que tinha imposto à cidade."
(Lecour H)
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-Estatística (Escrito original por Ricardo
Jorge)
- O rol junto aponta os casos registrados, desde o início até 23-9, acompanhados dos dados sucintos para a sua caracterização (1). Não abrange certamente a lista todos os casos
epidémicos ; alguns têm passado despercebidos, outros são sonegados. Apesar da vigilância havida, calculo que pelo menos um quinto dos casos têm sido desconhecidos. Uns são tão benignos que facilmente se encobrem; outros são casos fatais, de causa ignorada, por falta de assistência médica; de aí a praxe que temos seguido, tanto quanto possível, de autopsiar os cadáveres nessas condições, o que já nos rendeu umas poucas de vezes o achado inesperado da peste. .
Apuram-se da lista 89 casos averiguados até ao dia 24-9, dos quais 37 mortais. A mortalidade é pois de 41,5 %. Ao contrário dos que julgaram ver na peste do Porto uma fraca mortalidade, eu julgo-a forte de mais para uma cidade
europeia. Se lhe acrescentarmos um quinto ao menos de casos benignos, a taxa desce a 34,9, já uma cifra suportável. A sede dos casos está marcada no mapa junto.
Apanham-se bem o andamento epidémico e a predilecção topográfica. O centro de irradiação é a faixa ribeirinha dos Guindais a Miragaia. É em torno da Ribeira que os casos se aglomeram, embora ao longe também se divisem.
Suponhamos que o mapa do Porto é o alvo de uma carreira de tiro, e a peste um atirador. O ponto visado, a
mouche, está na Ribeira; os tiros mais numerosos acertam-lhe ao redor; os tiros mais raros, balas perdidas, extraviam-se aqui e além na carta.. A imagem é exacta, como à simples vista se reconhece; mas distinguem-se já, fora do centro infectante, zonas secundárias de
predilecção. Tal é a da Fábrica, foco importante, em torno da Feira do pão. A peste tende também a picar no Bairro Alto e para
os lados do Bonfim, invadindo bairros onde demoram fiadas de ilhas.
Os carregadores deram a principio o melhor contingente; agora há uma profissão onde os casos tendem a repetir-se -é a das lojas de cereais, mercearias, confeitarias, etc. Em Alexandria a epidemia também se assinalou por essa preferência. O pasto do rato explica bem esta influência pestífera.
Há 49 homens e 40 mulheres, quer dizer os dois sexos entram respectivamente na proporção de 55% e 45 %. Têm sido mais atacados os homens, como era natural, por mais expostos; mas a diferença deveria ser mais sensível; o contingente feminino avulta. Não há idades poupadas; as vítimas vêm de todas as classes etárias, desde os 2 anos até aos 80.
Agrupando os casos por meses, referidos à data da invasão, e os óbitos, temos a seguinte série
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Meses
(1899)
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Casos
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Óbitos
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Junho
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17
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5
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Julho
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10
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3
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Agosto
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36
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15
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Setembro
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57
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18
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A elevação da invasão sucede a queda de Julho; a meados de Agosto a linha sobe, mantendo-se com oscilações até agora. Infelizmente o ascenso tende a operar-se com grande força desde a semana última. Casos que não se apuravam numa semana, contam-se agora ao dia. Esta estatística e o respectivo gráfico param precisamente no ponto em que a recrudescência se inicia.
Está ultimada a fase preparatória da epidemia; anuncia-se um novo período, que bem mal agoirado já vai.
Não passamos aqui destas simples notas estatísticas, que precisam de ser completadas com os dados simu1tâneos da meteorologia, do obituário geral e zimótico, e devidamente desenvolvidas, o que breve faremos.
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