Sobre os sonhos


 
… Hoje sonhei que um homem mau, disfarçado de homem bom, estava a roubar tudo o que tínhamos (criança de 4 anos).

  ... Ontem sonhei que estava sentada no centro de uma casa muito estranha, sem paredes laterais, a tomar um refresco, na companhia dos meus pais (mulher jovem).

  ... Ontem sonhei que à árvore do meu quintal secou e caiu um grosso ramo. Jazia no chão como um coto encarquilhado (homem de 42 anos).

 

Sobre os sonhos escreveu-se muito mas, temos de aceitar, sabe-se pouco e a maioria das pessoas não lhes dá qualquer importância. Alguns toleram-nos mal queixando-se de que o seu descanso da noite não é o que devia ser e que o sono é de má qualidade por causa dos sonhos. Note-se que muitas das insónias (fenómeno que, segundo as melhores estatísticas atinge 38% dos frequentadores dos serviços de saúde) podem ter a ver com os sonhos. É claro que apesar das coisas serem postas nestes termos, em geral estas pessoas querem falar sobre tudo menos sobre os sonhos.

Se não é esse o seu caso e se gostava de entender o significado de um sonho que teve, lembre-se, em primeiro lugar,  que ninguém tem uma psicologia igual à sua. Esta questão da individualidade psicológica, sobretudo no modo de sentir e de se relacionar com os outros,  é um dos conceitos mais importantes que pode aceitar para si mesmo e quanto mais rapidamente o fizer, melhor para si.  A regra é que os sonhos também são de natureza individual embora uma senhora, há dias, me tenha contado que é frequente acontecer ter um sonho e, ao contá-lo ao marido, na manha seguinte, ele referir que sonhou exactamente o mesmo e conseguir completar o que a esposa sonhou. Mas as coisas, ditas assim, podem ter outra explicação que não é para aqui chamada.

O aspecto mais importante a ter em conta é que os seus valores morais e os comportamentos deles derivados, não poderão ficar em risco mesmo que tente interpretar os seus sonhos. Na minha opinião, pelo contrário, os efeitos desse esforço são sempre benéficos.

Com os sonhos, proceda do seguinte modo:

  1. Descreva o conteúdo manifesto (tudo aquilo de que se recorda)  do sonho.

    • Registe o sonho, por escrito e o mais fielmente que puder,  logo quando acordar. Isso é indispensável porque a nossa memória raramente os guarda para além de uns minutos, não se sabe bem por que motivo. 
    • Reserve um parágrafo para cada um dos elementos do sonho. Elementos do sonho são aquelas cenas relativamente delimitadas que compõem o sonho. Podem ser objectos, acções ou qualidades. Nos exemplos de cima considerou-se que cada frase representava apenas um elemento de um sonho mais complexo e, de facto, o que geralmente acontece é que os sonhos são constituídos por vários elementos distintos. Mas mesmo esses elementos dos exemplos, aparentemente únicos e indivisíveis por transmitirem uma ideia com sentido,  podem ser decomposto em vários outros (homem bom, casa, refresco, coto, etc.). Entretanto, nesta fase, evite ser obsessivo na divisão por elementos,  procure, pelo contrário,  respeitar o curso normal do sonho e deixe-se conduzir pela sua própria intuição.
    • Não tente retirar qualquer conclusão, nesta altura, sobre o significado do sonho e não se admire se os diversos elementos lhe parecem incoerentes, incompreensíveis, mal encadeados ou desprovidos de afectos.  Também não estranhe se os temas que consegue isolar envolverem questões como sexo, gravidez, dinheiro, culpa, ruína ou angústia. Pode estar seguro de que nem sempre as imagens oníricas que envolvem sexo se referem verdadeiramente a sexo, no sentido que a sua vida consciente lhe atribui. É que o sonho é "um texto desconhecido, uma criação psíquica  que se situa à margem do desenvolvimento contínuo dos factos conscientes" e pode muito bem acontecer que a interpretação final sugira, em vez de sexo,  desejos ou vivências de protecção e segurança.

  2. Se o leitor tiver alguma ideia de como se efectua uma "análise de conteúdo" de um texto verbal, pode começar por aí e avançar para a construção de uma tabela de frequências dos elementos do sonho.  E pode ir um pouco mais além na identificação das ideias fundamentais impressas nesse texto obscuro. As imagens do sonho, bem como outras que se lhes associem, devem ser bem identificadas e descritas. O ideal seria conseguir a sua expansão, socorrendo-se das suas capacidades cognitivas, para compreender como é que os sonhos se relacionam com a sua vida desperta. Mas para isso, não deverá dispensar a fase seguinte, podendo, posteriormente, voltar a esta abordagem.  

  3. Descubra o conteúdo latente do sonho

    • Tudo indica que na maioria dos sonhos aparecem "reminiscências do vivido” (sobretudo as do próprio dia que antecede o sonho ou as de dias anteriores). Podem ser pormenores provenientes de sensações, impressões, pensamentos, simples vestígios de lembranças, sentimentos, estados de alma ou humores. O estudo das circunstâncias emocionais que rodeiam o sonho é, portanto, uma necessidade incontornável. Valorize todas essas "reminiscências”, mesmo as de fraco relevo que a sua consciência parece ter deixado escapar ("percepções subliminares").
    • Proceda assim: Comece por percorrer mentalmente todos os acontecimentos do dia anterior, tentando, com honestidade, descobrir os pensamentos que lhes estiveram associados. Mas centre-se sobretudo nas situações que lhe disseram directamente respeito (a si, como indivíduo que, por prazer, acaso ou obrigação, necessitou interagir com outros seres humanos). Mesmo que o leitor seja uma pessoa invulgarmente altruísta e no dia anterior tenha tratado dos grandes problemas da humanidade como as guerras, a fome ou a poluição, não espere que o seu sonho se refira a tais assuntos de uma maneira científica, abstracta, impessoal. É verdade,  "nenhum sonho é produzido por sentimentos distintos do egoísmo". A frustração, no Homem, começa logo após o nascimento e vai acompanhar muitos actos de toda a nossa vida. Verifique, então, se há pensamentos e recordações de especial componente afectivo, para si. Por exemplo, sentiu-se injustamente avaliado, rejeitado ou simplesmente ignorado?
    • A maior dificuldade estará, provavelmente, na resistência que nós próprios oferecemos ao reconhecimento de alguns desses afectos (a que alguns chamam “representações reprimidas”) sobretudo se, por qualquer motivo,  os consideramos inadmissíveis. Este trabalho de análise da vida interior pode dar resultados muito interessantes, alertando-nos para sentimentos que nos tinham passado despercebidos. E, mais importante ainda, corresponde a lançar luz sobre uma parte da noite - transferindo para a vida consciente, uma parcela da nossa vida psíquica desconhecida (o sonho poderá estar a tentar revelar-nos essa face obscura, complementar, de nós mesmos).
    • Segue-se a fase mais complicada, em que se trata de descobrir quais daquelas ocorrências  (cenas que se passaram consigo no dia anterior) aparecem reproduzidas no sonho. Conforme já sugerimos, pelo menos alguns dos elementos do sonho podem ser simples substitutos dos pensamentos portadores de afectos que antes experimentou. Por exemplo, os desejos insatisfeitos, tão abundantes na nossa vida psíquica do dia de ontem ou de hoje, são um estímulo muito frequente para o desencadear do sonho.
    • Existe, portanto, a necessidade de se proceder a um trabalho interior que estabeleça associações aceitáveis (aceitáveis para si) entre o material antes identificado (ideias - conteúdo latente) e cada um dos elementos do conteúdo manifesto (situação - sonho). Para conseguir isso, deve ter bem presentes os sentimentos envolvidos em cada um dos elementos do sonho. O sonhador deve fazer uma espécie de imersão na experiência do sonho, deixando trabalhar livremente a sua mente. Depois de se dedicar algum tempo a essa actividade, desenvolvida em atitude de relaxamento, em vez de ter apenas o seu sonho, o leitor já disporá de um material mais vasto, composto por um conjunto de ideias que têm algum significado para si mesmo, visto que a sua mente as associou umas às outras. Mas tenha em atenção o seguinte:
    • A nossa mente, durante o sono, não se comporta do mesmo modo que durante a vida desperta. Em particular, não segue as regras da lógica (o tempo e o espaço parecem perder significado e tudo o que houver a dizer terá de se dito recorrendo a imagens, geralmente de carácter visual).
    • Não se sabe muito bem porque é que as imagens têm uma tal preponderância nos sonhos mas pensa-se que a criança começa por guardar imagens do ambiente e pensar tudo em termos de imagens, muito antes de conhecer as palavras adequadas. Assim sendo, o pensamento vai ficar íntima e definitivamente ligado a metáforas e até o desenvolvimento e compreensão da linguagem vai assentar nelas. Esta dependência de imagens elementares e metáforas existe no sonho e na vida desperta. Por exemplo, se na vida real utilizar uma expressão do tipo "ela é uma borboleta que esvoaça à minha volta", o que se passa é que está a tentar traduzir graficamente o essencial dos seus sentimentos e experiências face a alguém que você próprio percepciona de um modo muito especial. Pois o sonho utiliza frequentemente metáforas.
    • Todo o ser humano alberga desejos que não gosta de confessar a outros e desejos que se recusa a admitir em si próprio; Ora, sendo muitos sonhos a expressão mais ou menos evidente de desejos mais ou menos reprimidos, compreende-se a existência de encenações  (deformações do conteúdo latente)  aquando do sonho. Nesta elaboração, a mente socorre-se, por isso mesmo, de diversos artifícios que têm sido descritos sob termos como "substituição", "condensação", "deslocamento", "regressão", etc.
    • Várias pessoas podem aparecer fundidas numa só e uma mesma personagem poderá representar várias outras (condensação).  As emoções significativas podem aparecer “deslocadas” em pessoas, animais ou objectos sem importância (parece mesmo haver esta preferência do sonho pelo indiferente e o fútil).
    • Em geral, tente rever-se no papel do actor principal da cena.  Mas pode aparecer sob o "disfarce" (ou como agora se diz, a "transformação")  de outras personagens mais ou menos adequadas à representação das diversas  facetas da sua personalidade. Não esqueça que dentro de cada um de nós existe um outro que nos é em grande parte desconhecido; No sonho esse outro pode dizer-nos como nos vê e como vê os nossos problemas. Por exemplo nos sonhos sobre sexo, é frequente vermos personagens com qualidades que desejaríamos ver em nós mesmos. Explore um pouco esta perspectiva que pode revelar-se muito fértil. Em certos casos, uma dessas personagens do sono acaba por morrer. Isso não poderá significar que pretendemos abandonar algumas coisas da nossa maneira de ser que essa personagem representa?
    • Dê especial atenção às acções que se desenrolaram no sonho porque, em certos casos, elas podem representar o essencial da mensagem inconsciente.
    • A utilização de parábolas (como a conhecida história do filho pródigo), de alegorias (ex.: o roubo da maçã) ou de símbolos (ex.: "rei", "rainha, "casa", "semente") poderá ser uma forma de expressão preferencial em certos sonhos. O reconhecimento do significado de tais "motivos mitológicos" tem sido utilizado na interpretação de alguns sonhos completos ou de apenas partes deles. Corresponderiam a imagens "universalmente humanas, capazes de renascerem, autóctones, em cada um de nós e em todos os tempos". Quer dizer, portanto, que embora em certos casos o seu significado possa ser racionalmente compreendido e expresso (nós conseguimos entender muito bem a recomendação moral ou religiosa de uma parábola e também entendemos o tratamento figurativo presente numa alegoria), em outros é humanamente impossível descobrir todo o seu significado, como se o que nos chega tivesse sido parcialmente filtrado (é o que acontece com os símbolos). Mas no sonho deve sempre favorecer-se o significado que o torna compreensível para o caso individual do sonhador. Num dos exemplos anteriores, a casa não representa simbolicamente "a mulher" como se refere em vários livros sobre o tema que nos ocupa,  mas, antes, uma daquelas construções indígenas, das ilhas vulgarmente consideradas paradisíacas, que aparecem reproduzidas nos postais de férias (a autora do sonho tinha conseguido, a muito custo e no dia anterior ao sonho, acertar as suas férias com a entidade empregadora).
    • Como já se referiu, alguns sonhos podem ter uma função "de contrapeso" inconsciente, expressando aqueles pensamentos, juízos, concepções, directrizes, inclinações e tendências que a actividade consciente não põe suficientemente em relevo. Contudo, descobrir essas inclinações típicas da nossa personalidade (por ex. tendência incontornável a considerar-se culpado quando se apercebe que tem determinadas necessidades), não é tarefa fácil. Entretanto, já é uma sorte que no sonho possam surgir aqueles pontos de vista desconhecidos ou menosprezados pela nossa maneira típica de ser. De resto, é muito frequente encontrar pessoas cuja aparente boa adaptação ao ambiente exterior quadra mal com o carácter pessoal, notando-se a cada momento que o esforço de adaptação ultrapassa os recursos individuais. Um sonho pode vir chamar a atenção para esse excedente de actividade exterior para o qual o indivíduo não está à altura. De modo semelhante, a situação actual, menos perceptível, de grande parte da sua vida psíquica pode estar a tentar exprimir-se espontaneamente no seu sonho mais recente. A nossa mente guarda vestígios de coisas que não estão acessíveis porque são antigas, raramente utilizadas ou porque foram guardadas sem terem sido compreendidas.
    • Os sonhos de uma mesma noite costumam proceder de um mesmo ciclo de pensamentos.  É muito interessante poder analisar vários sonhos em vez de um único. Pode acontecer que os sonhos de um mesmo indivíduo se apresentem de um modo que convida a encaixá-los uns nos outros, como se faz com as peças de um puzzle. Por vezes só deste modo se poderá conseguir uma percepção apurada da personalidade do sonhador. Por exemplo, a frequência com que nos sonhos temos tendência a ser simples espectadores ou verdadeiros actores, é uma questão a anotar (a dimensão que caracteriza a nossa tendência para a “actividade / passividade" é muito informativa sobre a nossa maneira de ser). Do mesmo modo, não é indiferente se os sonhos mostram uma apetência notória sobre acontecimentos passados ou presentes. Quem sonha sobretudo com acontecimentos antigos pode estar a ter um baixo grau de empenhamento com a problemática presente da sua vida. É muito frequente que as séries de sonhos, da mesma pessoa, demonstrem um certo grau de consistência e continuidade, de tal como que alguns autores recomendam a construção de uma espécie de dicionário pessoal dos próprios sonhos.
    • Como já afirmámos, as pessoas são diferentes umas das outras e cada um de nós encontra-se, no momento do sonho, num determinado contexto da sua existência. Encare o sonhador como uma pessoa em evolução, um ser aberto e inacabado que sente as coisas à sua maneira mas que pode desenvolver novas e inexploradas potencialidades do seu ser e encher-se de sentimentos positivos sobre a sua existência. Não o pense como um ser alienado, um simples sedimento das suas experiências e traumas do passado, apesar de tudo ter de ser entendido dentro da sua maneira particular de ser e de estar no mundo que é o mundo dele próprio.
    • Nem tudo pode ser simplificado ou reduzido a clichés. Tradicionalmente diz-se que quando aparecem animais num sonho, eles representam a nossa personalidade inconsciente, instintiva e impulsiva. Mas essa interpretação serviria para todos por igual (todos convivemos diariamente com os nossos instintos) e pode não levar a lado nenhum. O sonho tem um efeito sobre o sonhador e isso é relevante. Quando crianças, fugíamos das imagens do sonho refugiando-nos na cama dos pais. Conceda a si mesmo uma oportunidade de "contar a sua história", desenvolver plenamente o seu pensamento sobre um sonho. Quem sabe se os elementos que identifica não farão sentido (revelando potencialidades)  dentro da sua própria vivência consciente? Nesta perspectiva, há que analisar  detalhadamente o que sente e como reage (com satisfação, indiferença ou medo) àquele assunto que o sonho aborda. Para além do mais, a experiência de meditar sobre um sonho pode ser mais útil do que receber uma interpretação. Não é de mais insistir que o objectivo é que o sonho faça sentido dentro dessa sua existência particular, por traduzir necessidades especiais dessa maneira especial de se relacionar com o mundo que é específica de si. Isto tudo faz sentido quando nos demos conta de que a simples experiência do sonho nos conduz rapidamente aos desejos e afectos do sonhador.

  4. Considere terminada a análise do sonho, logo que ela lhe pareça satisfatória. A verdade é que há vários níveis de interpretação mas a que o satisfaz é a mais correcta.

Agora que se deu ao trabalho de ler tudo isto, é muito provável que não tenha conseguido compreender o significado de um determinado sonho que lhe tem vindo ao pensamento. O sonho pode continuar incompreensível, sem sentido ou a deixar um sentimento de estranheza desagradável.  Não se admire porque esse é, infelizmente, o que por vezes acontece. Nesses casos, aconselha-se a pessoa a não deixar o assunto de lado, por dois motivos: O primeiro é que o sonho pode repetir-se num futuro mais ou menos próximo e esse facto favorece a sua posterior análise.  A outra razão é que há quem acredite que alguns sonhos, sobretudo os mais complexos e aqueles que são sentidos como uma violência dirigida contra nós mesmos,  por ex. pelo seu conteúdo imoral, só podem ser correctamente interpretados no contexto de um tratamento psicológico de longa duração. E lembre-se que, nesse contexto, o objecto de análise é o sonhador e não um sonho particular. Pior ainda, o significado de alguns sonhos permanecerá secreto para toda a nossa vida como se esta possibilidade que a natureza nos deu, a de poder sonhar, devesse ser encarada como um presente em si mesmo, independentemente do carácter utilitário que gostaríamos de lhe atribuir. 

Ler mais:

Freud, S; La interpretacion de los suenos. Alianza Editorial, Madrid, 1984
Jung, CJ; O Homem à descoberta da sua alma; Livraria Tavares Martins; pp 241-425.
Porto, 1975
Vedfelt, O; Dimensions of Dreams; The Nature, Function, and Interpretation of Dreams; Jessica Kingsley Publishers; 2002

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