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O
stress laboral e a sua saúde
O progresso tecnológico e a melhor organização social (onde
supostamente prevalecem os valores democráticos) deveriam originar uma
maior satisfação no trabalho. Infelizmente não é isso que se passa,
notando-se, pelo contrário, que o stress laboral se transformou numa
das principais epidemias do nosso tempo. Os casos que conhecemos
levam-nos a pensar que mais de metade dos trabalhadores sofrem
intensamente com esse problema. Numa perspectiva comunitária, julga-se
actualmente que o stress laboral pode estar na base de um grande número
de problemas sociais e doenças físicas e mentais, incluindo a
hipertensão arterial, a doença coronária, o suicídio, as reacções ansiosas e
depressivas prolongadas, o absentismo, etc.
Os
sintomas instalam-se insidiosamente e obrigam a investigações médicas
prolongadas, inúteis e, em alguns casos, perigosas. A vítima queixa-se
de dores de cabeça, fadiga, irritabilidade, perturbações do sono e
dores osteomusculares e sente que o seu rendimento baixa. Por vezes o
seu discurso revela grande hostilidade para com a a entidade
empregadora, o governo ou o sistema, como nestes exemplos que coligi. A experiência
ensina que, em algumas destas situações, o empregado deve ser
imediatamente colocado em regime de "baixa médica", sob pena de
surgirem graves problemas para a sua saúde ou conflitos desnecessários
com a hierarquia da instituição onde trabalha (risco elevado de perder
o emprego).
De
acordo com o modelo mais aceite, recentemente desenvolvido por Robert
Karasek (Karasek RA, Theorell T. 1990. Healthy Work. New York: Basic
Books), as coisas passam-se assim, sobretudo nos casos em que o
trabalhador sente que lhe é exigido um elevado volume de trabalho
(sente-se pressionado) e, ao mesmo tempo, apercebe-se de que não tem
controlo sobre as tarefas a executar (negam-lhe a capacidade de
decisão).
Com
base numa rápida busca à minha memória e de entre os casos com que
contactámos nos últimos meses, o leitor estará sob risco elevado de
desencadear sintomas em situações deste tipo:
- Faz parte de uma linha de produção em que
qualquer pausa origina problemas a montante ou a jusante do seu posto
de trabalho.
- Tem um chefe que não gosta de si, ou, pior
ainda, que o persegue.
- O seu chefe é notoriamente incompetente (não
possui os conhecimentos específicos exigidos). Situação relativamente
frequente nas grandes instituições mas, no nosso país, nota-se
sobretudo no funcionalismo público.
- Existe controle electrónico da hora de
entrada (desprezam-se completamente necessidades fundamentais como a
obrigação de levar os filhos à escola, deixar os idosos "preparados"
para passarem sozinhos o resto do dia, percorrer, no trânsito,
distâncias consideráveis até ao local de trabalho, etc.).
- Trabalha sob vigilância de câmaras de filmar.
- Está sujeito ao sistema de "avaliações
individuais", agora muito em voga, sistema que me parece, entre outras
coisas, favorecedor da corrupção e responsável pela destruição do
"trabalho em equipa" a que a humanidade tanto deve.
- Não tem qualquer autonomia (na organização
do posto de trabalho, no ritmo a aplicar, nas soluções a implementar).
- No início do dia, chega ao seu posto de
trabalho sem fazer a mínima ideia das tarefas que lhe vão ser exigidas.
- Sente que tem menos capacidades (físicas ou
intelectuais) do que os colegas.
- Considera que não tem formação suficiente
para as tarefas exigidas (sente-se inseguro).
- Lida com um público insatisfeito com a
organização ou empresa em que você trabalha.
- Os serviços passam por “reorganizações”
frequentes que implicam transferências imprevistas, alteração do seu estatuto profissional ou necessidades de
adaptação a tarefas substancialmente diferentes das que antes executava.
- Trabalha em regime de contracto a prazo ou
sob constante ameaça de desemprego.
- Trabalha com computadores, monitores, etc.
(muitas pessoas toleram mal o contacto prolongado com estes
equipamentos, queixando-se das radiações, de dores de cabeça, de
perturbações oculares).
- Executa movimentos repetitivos durante uma
parte significativa do seu dia de trabalho.
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